Líderes na reconstrução do RS defendem ampliação do crédito para adaptação às mudanças climáticas

Evento é uma das iniciativas da ABDE que fazem parte da trilha de eventos promovido como preparativo para a COP 30

A reconstrução do Rio Grande do Sul e os caminhos para uma economia brasileira mais sustentável dominaram os debates do Fórum ABDE – Desenvolvimento Regional e Cooperativismo: Desafios e Oportunidades para a Promoção da Transição Sustentável Justa, realizado nesta quarta-feira (8), em Porto Alegre. O evento, promovido pela Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE) no Salão Nobre da Catedral Metropolitana, reuniu representantes de bancos públicos, cooperativas de crédito, governos e setor produtivo para discutir como o financiamento ao desenvolvimento pode acelerar a transição verde e fortalecer a resiliência das cidades.

A agenda faz parte de uma trilha de fóruns sobre as principais temáticas e pautas estratégicas para a promoção do financiamento sustentável que antecedem a COP 30. A iniciativa já passou por Teresina (PI), Recife (PE), São Paulo (SP), finalizando em Belém (PA), durante a COP 30. Essa edição é realizada em parceria com o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), com patrício de Sicredi e Cresol e apoio do Badesul e do Sistema OCB.

O diretor da ABDE e presidente da Cresol, Cledir Magri, destacou que o crédito de fomento é peça-chave para viabilizar a transição sustentável no país. Ele informou que o Sistema Nacional de Fomento (SNF) respondeu por 81% do crédito rural repassado em 2024, com destaque para a atuação das cooperativas de crédito, responsáveis por 19% desses recursos, que garantem inclusão financeira e oportunidades a pequenos e médios produtores em regiões remotas.

Magri lembrou que o Rio Grande do Sul foi o segundo estado brasileiro em volume de crédito agrícola, movimentando R$ 30 bilhões e firmando 1,9 milhão de contratos apenas no último ano — um reflexo da importância do fomento para a economia local e para a reconstrução do estado. Ele também ressaltou que, pela segunda vez na história, a ONU declarou 2025 como o Ano Internacional das Cooperativas, com o lema “Cooperativas constroem um mundo melhor”, reforçando o papel transformador do cooperativismo na construção de uma economia verde, inclusiva e inovadora.

Anfitrião do evento, o presidente do BRDE, Ranolfo Vieira Júnior, destacou que o estado enfrentou em 2024 o maior desastre de sua história. “Hoje, temos eventos climáticos adversos acontecendo em todos os cantos do mundo, e não foi diferente para nós, gaúchos e gaúchas, naquele maio de 2024. Tivemos a maior catástrofe do nosso estado — dezenas de mortes, prejuízos, algo que jamais imaginaríamos enfrentar”, disse, referindo-se às enchentes devastadoras que atingiram a região.

Ele acrescentou que as estiagens severas também têm afetado o estado, contribuindo para a queda nos negócios e estimulando a migração de famílias para outras regiões do país. “Por isso, é fundamental promover uma transição sustentável, voltada a um desenvolvimento econômico, social e ambientalmente responsável”, afirmou.

O secretário de Desenvolvimento Econômico do RS, Ernani Polo, que representou o governador Eduardo Leite, afirmou que o estado vive “uma era de grandes transformações”, com os eventos climáticos extremos exigindo novas formas de cooperação e planejamento. No contexto da reconstrução guiada pelo Plano Rio Grande, ele defendeu o equilíbrio fiscal e ressaltou a importância dos novos investimentos que têm chegado à região. “É um desafio muito intenso e que naturalmente precisa contar com o apoio das instituições financeiras e da sociedade como um todo, para que possamos reconstruir o estado com mais resiliência”, disse, ao citar iniciativas em andamento, como o lançamento de uma fábrica de aviões ainda neste mês.

O diretor da Finep, Márcio Stefanni, informou que a financiadora “recebeu a maior capitalização da história” e que “R$ 3 bilhões dos R$ 7 bilhões liberados até setembro foram destinados à região Sul”. Já o diretor de Desenvolvimento do Banrisul, Fernando Postal, celebrou a parceria com a Finep: “A Finep tem representatividade extraordinária no desenvolvimento do nosso estado”, afirmou. O presidente do Badesul, Cláudio Gastal, complementou: “O Sistema Nacional de Fomento tem espaço para crescer, e o papel da ABDE é essencial para a articulação institucional.”

Representando a FIERGS, o economista-chefe Giovane Baggio afirmou que o crédito de fomento é “a conexão entre os recursos e a atividade que gera emprego e desenvolvimento”. Ele elogiou a rápida recuperação industrial após as enchentes, mas alertou para os desafios de infraestrutura e para o envelhecimento populacional do estado, cuja pirâmide etária está cerca de dez anos à frente da média nacional.

O presidente do Sicredi, César Gioda Bochi, defendeu a união entre lideranças, instituições de fomento, governo e sociedade civil diante das mudanças climáticas, com foco na prevenção de novas tragédias. “Temos que dar as mãos e andar juntos para alcançar soluções que possam convergir para uma sociedade melhor. O que aconteceu no ano passado teve uma mobilização ímpar e trouxe muito orgulho. Foi a união de pessoas em torno do que é maior: a vida humana. Mas o desafio agora é não esperar as tragédias acontecerem”, ressaltou.

O superintendente do Sistema OCB, Robson Mafioleti, reforçou que as cooperativas tiveram papel decisivo durante a crise climática no estado. “Discutir sustentabilidade e ESG está no nosso DNA. Cuidamos do social. Na nossa base, 75% dos produtores têm até 50 hectares. Há 40 anos, nosso financiamento era pequeno; hoje, representamos cerca de um terço do crédito do país e, no Sul, 50% do que chega às pontas vem das cooperativas de crédito”, destacou.

A secretária-adjunta de Meio Ambiente, Sustentabilidade e Urbanismo de Porto Alegre, Júlia Zardo, representando o prefeito Sebastião Melo, levou a discussão para o campo urbano. “Falar de cidades resilientes é planejar a capacidade de adaptação e eficiência na gestão pública”, afirmou. Ela citou o novo Plano Diretor de Porto Alegre e o uso de soluções baseadas na natureza, defendendo que “o poder público precisa ser facilitador”.

Fotos: Denis Videos