GRSAC
Orientações para instituições financeiras brasileiras sobre como identificar, mensurar, monitorar e mitigar riscos SAC — protegendo a solidez financeira e a estabilidade operacional.
Esta cartilha reúne orientações para as instituições financeiras brasileiras implementarem estratégias, processos e estruturas para o gerenciamento de riscos sociais, ambientais e climáticos (gestão de RSAC). A principal referência normativa é a Resolução CMN nº 4.557, de 23/2/2017, conforme atualização pela Resolução CMN nº 4.943, de 15/9/2021, que incorporou os riscos SAC ao arcabouço de gerenciamento de riscos das instituições financeiras.
A cartilha integra o projeto de relatoria técnica do Seminário “Sustentabilidade Social, Ambiental e Climática no Setor Financeiro Brasileiro: da responsabilidade à gestão dos riscos”, realizado nos dias 24 e 25 de junho de 2025 pelo Banco Central do Brasil (BCB), o qual foi apoiado pela GIZ sob a égide do Projeto Finanças Brasileiras Sustentáveis (FiBraS). A elaboração da cartilha é uma iniciativa da GIZ Brasil/ Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH no âmbito da Cooperação Brasil-Alemanha para o Desenvolvimento Sustentável por meio do Projeto FiBraS, apoiado pelo Bundesministerium für wirtschaftliche Zusammenarbeit und Entwicklung (BMZ) da Alemanha. Cabe ressaltar que as orientações contempladas neste documento não são oriundas diretamente do BCB. Elas são o resultado dos insumos coletados no âmbito do referido Seminário.
O conteúdo da cartilha está disposto em sete seções. A primeira seção aborda o contexto em que emergiu a atenção a riscos SAC das instituições financeiras, ao passo que a segunda seção apresenta um histórico conciso dos marcos prudenciais emitidos pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). A terceira seção oferece um detalhamento dos aspectos normativos da gestão de RSAC, dedicando-se a quarta seção ao tema dos exercícios de estresse associados a esses riscos. A quinta e a sexta seções relacionam-se diretamente com o Seminário sobre temas SAC organizado pelo BCB, e sistematizam, respectivamente, os desafios e as oportunidades atinentes ao gerenciamento de riscos SAC identificados na relatoria técnica do Seminário. A sétima e última seção apresenta um passo a passo composto de iniciativas-chave para a implementação do gerenciamento de RSAC pelas instituições financeiras.
A gestão de RSAC insere-se no arcabouço prudencial como elemento central para a preservação da estabilidade e solidez das instituições financeiras.
Opera a partir de métricas orientadas à identificação e mensuração de perdas potenciais, à proteção do capital, à preservação da liquidez e à mitigação de riscos SAC.
Promoção de impactos positivos das IFs nas dimensões social, ambiental e climática — riscos SAC podem ensejar ações de responsabilidade, mas não esgotam o escopo.
Perdas ocasionadas por eventos associados à violação de direitos e garantias fundamentais ou a atos lesivos a interesse comum.
Perdas associadas à degradação do meio ambiente e ao uso excessivo de recursos naturais, incluindo serviços ecossistêmicos.
Subdivide-se em transição (adaptação à economia de baixo carbono) e físico (eventos climáticos extremos e alterações de longo prazo).
O gerenciamento de riscos SAC resulta de um processo recente de incorporação da agenda SAC ao arcabouço prudencial do sistema financeiro brasileiro.
Início dos compromissos voluntários do sistema financeiro voltados à agenda socioambiental: gestão de riscos, transparência e prevenção de práticas inadequadas.
Sustentabilidade integra a estratégia institucional do BCB, estruturando normativos em três eixos: gestão de riscos SAC, transparência e responsabilidade SAC.
Distinção entre responsabilidade SAC (impactos das IFs sobre a sociedade) e gestão de riscos SAC (efeitos desses fatores sobre a IF).
Ciclos de supervisão mais amplos verificam a incorporação dos riscos SAC às práticas das instituições.
Avaliações de Riscos e Controles (ARCs) específicas para responsabilidade SAC e gestão de riscos SAC.
A supervisão de riscos SAC é estendida a instituições financeiras não bancárias, ampliando o alcance do arcabouço prudencial SAC.
Marcos normativos, definições de risco, estrutura de gerenciamento e requisitos de divulgação que sustentam a gestão de RSAC sob a ótica de fora para dentro.
A gestão de RSAC diz respeito à necessidade de gerenciamento da possibilidade de perda para a IF, em decorrência de questões sociais, ambientais ou climáticas.
Fonte: GPS, subitem 10.10.10.11.02 - Gestão dos RSAC, pontos 1.2 e 1.6
Identificar, mensurar, avaliar, monitorar, reportar, controlar e mitigar riscos decorrentes de exposições a eventos SAC. Adotar política de divulgação pertinente.
Estratégias de negócios, arranjos de governança interna e gestão integrada de riscos — observando porte e relevância.
Manter número suficiente de profissionais tecnicamente qualificados nas áreas sujeitas à assunção de riscos.
Fonte: Resolução CMN n° 4.557, arts. 2°, 6°, 7°, 8° e 10; GPS, subitem 10.10.10.11.02 - Gestão dos RSAC, pontos 1.6 e 1.7.
Definição: Possibilidade de perdas ocasionadas por eventos associados à violação de direitos e garantias fundamentais ou a atos lesivos a interesse comum.
Interesse comum: aquele associado a grupo de pessoas ligadas jurídica ou factualmente pela mesma causa, quando não relacionado às definições de risco ambiental ou climático.
Definição: Possibilidade de perdas ocasionadas por eventos associados à degradação do meio ambiente, incluindo o uso excessivo de recursos naturais e serviços ecossistêmicos.
Perdas associadas ao processo de transição para uma economia de baixo carbono — em que a emissão de GEE é reduzida ou compensada e os mecanismos naturais de captura são preservados.
Perdas associadas a intempéries frequentes e severas ou a alterações ambientais de longo prazo, relacionadas a mudanças em padrões climáticos.
Fonte: Resolução CMN n° 4.557, arts. 38-A, 38-B e 38-C; GPS, subitem 10.10.10.11.01 - Riscos social, ambiental e climático (RSAC).
Conjunto de políticas, processos, procedimentos, pessoas e sistemas por meio do qual a IF deve gerenciar sua exposição a esses riscos.
A governança compreende o papel das instâncias da IF nos níveis estratégico, tático e operacional — em especial CA, diretoria, CRO, comitê de riscos, comitê de auditoria e unidades de negócio.
Fonte: Resolução CMN n° 4.557, art. 38-D; GPS, subitem 10.10.10.11.02 - Gestão dos RSAC, ponto 1.6.
O tratamento das interações dos riscos SAC entre si e com os demais riscos da IF deve ser explicitamente contemplado na estrutura de gerenciamento.
Critérios claramente documentados e passíveis de verificação para identificar os riscos SAC como origem dos demais riscos.
Avaliação do impacto dos riscos SAC nas posições sujeitas ao risco de mercado e ao risco de taxa de juros da carteira bancária.
Políticas, estratégias e procedimentos para mitigação do risco operacional que possa ser associado a evento de riscos SAC.
Políticas, estratégias e procedimentos para mitigação do risco de liquidez que possa ser associado a evento de riscos SAC.
Consideração de aspectos relativos aos riscos SAC na concessão, classificação e monitoramento das operações sujeitas ao risco de crédito:
Nota: os exemplos enfatizam operações de crédito. Os riscos SAC devem ser contemplados também em investimentos (TVM, participações societárias), nos demais negócios e nas atividades internas da IF.
Fonte: Resolução CMN n° 4.557, art. 38-E
A IF deve implementar uma política de divulgação sobre a estrutura de gerenciamento contínuo e integrado de riscos, com aspectos específicos dos riscos SAC.
Destinados à diretoria, comitê de riscos e CA · escopo amplo
Conteúdo:
Comunicação estruturada ao pessoal da IF
Informações sobre o gerenciamento de riscos SAC, com linguagem e grau de informação compatíveis com a área de atuação. Devem incluir:
Riscos e Oportunidades Sociais, Ambientais e Climáticas · publicação anual no site da IF
Conteúdo:
Documento de Risco Social, Ambiental e Climático · enviado ao BCB pelas IFs S1–S4
Avaliação dos riscos SAC em operações de crédito e títulos & valores mobiliários, e dos respectivos devedores. Inclui:
Fonte: Resolução CMN n° 4.557, arts 2°, 7°, 8°, 38-F e 56; Resolução BCB n° 139; Resolução BCB n° 151.
As métricas representam um dos principais desafios para a gestão efetiva dos riscos SAC. Organizadas em 7 categorias estratégicas.
Carteira mapeada por setor e território; geolocalização válida; exposição a setores e áreas ambientalmente sensíveis.
Exposição a eventos físicos relevantes; dependências críticas de serviços ecossistêmicos; territórios com degradação ambiental.
Carteira sujeita a embargos e sanções; exposição a setores de alto risco regulatório; operações reestruturadas; greenwashing.
Decisões de crédito que incorporam avaliação SAC; limites por setor e território; alçadas; revisão periódica de políticas.
Cobertura da carteira em testes climáticos; impacto estimado em crédito, capital e liquidez; integração de cenários.
Colaboradores treinados em riscos SAC; instâncias especializadas; comitês ou núcleos técnicos dedicados.
Carteira com monitoramento pós-concessão; atualização do mapa institucional; uso de dados ambientais públicos.
12 eixos de desafios identificados no Seminário do BCB (jun/2025) para a consolidação do gerenciamento de RSAC.
Riscos SAC permanecem tratados de forma paralela, sem influência sobre políticas de crédito, precificação ou planejamento.
Fragilidades na definição clara de papéis na alta administração dificultam coordenação e priorização.
Dificuldade na compreensão do escopo da supervisão prudencial SAC, com risco de sobreposição com riscos operacionais.
Sem diagnóstico claro das exposições, torna-se difícil hierarquizar riscos e definir prioridades.
Riscos de transição estão mais incorporados; riscos físicos permanecem pouco desenvolvidos. Difícil mensurar eventos extremos.
Dependência de atividades econômicas em serviços ecossistêmicos é dimensão pouco explorada.
Avaliação de riscos físicos requer geolocalização. Endereços cadastrados frequentemente não correspondem aos ativos.
Exposições indiretas em cadeias de valor — incluindo operações transfronteiriças — dificultam o monitoramento contínuo.
Ausência de limites granulares dificulta gestão ativa, especialmente em carteiras concentradas setorial ou territorialmente.
Impactos climáticos se manifestam no longo prazo, enquanto mandatos e incentivos operam no curto prazo.
Inconsistências entre discurso e prática geram riscos reputacionais, legais e financeiros frequentemente não mensurados.
Transformar reconhecimento conceitual em práticas operacionais consistentes exige liderança, governança e dados.
11 oportunidades para o fortalecimento do arcabouço prudencial e o aumento da resiliência das instituições financeiras.
Incorporação dos riscos SAC amplia a capacidade de antecipar vulnerabilidades e preservar solidez diante de choques.
Aproxima a gestão de riscos das decisões estratégicas, informando prioridades setoriais e planejamento.
Fortalecimento da governança e cultura de risco orientada à prevenção e visão prospectiva.
Organizar informações, hierarquizar exposições e orientar estratégias de mitigação — base para evolução técnica.
Aprofundamento incluindo degradação de ecossistemas amplia compreensão das interdependências clima-natureza.
Geolocalização sistemática cruza exposições com características ambientais — eleva precisão em risco físico.
Crescente disponibilidade de bases públicas e científicas aprimora diagnósticos e indicadores verificáveis.
Espaço de inovação: cenários regionalizados, híbridos e baseados em eventos físicos observáveis.
Incorporação ao gerenciamento de crédito, mercado, liquidez e operacional — captura de efeitos sistêmicos.
Apoio à estruturação de operações compatibilizando prudência financeira com estratégias de longo prazo.
Padronização de métricas e reportes amplia comparabilidade e reforça credibilidade da agenda prudencial.
10 iniciativas-chave para a implementação do gerenciamento de RSAC nas instituições financeiras.
Riscos diretos e indiretos em suas dimensões temporais (curto, médio e longo prazos).
Por tipo de operação, setor e localização — cruzamento com bases públicas, geolocalização e análise setorial.
Papéis e responsabilidades bem definidos: participação do CA, comitês e diretoria nas decisões.
Diretrizes, instrumentos de controle e planos de ação compatíveis com porte e complexidade.
Formulários por perfil, questionários, matrizes de elegibilidade e classificação por nível de risco SAC.
Operações de alto risco analisadas em instâncias superiores, com justificativas e documentação técnica.
Instâncias multidisciplinares para analisar riscos SAC e aprovar operações sensíveis.
Treinamentos contínuos para áreas de negócio, risco, compliance e crédito — cultura de responsabilidade.
Métricas, indicadores e sistemas de monitoramento pós-concessão e acompanhamento permanente.
Eventos extremos, alterações regulatórias ou mudanças no perfil da carteira devem levar à revisão de estratégias.