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Lideranças femininas

5 de maio de 2021 às 13:00
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Presidentes de instituições financeiras de desenvolvimento e especialistas de organismos multilaterais comentam ações para estímulo ao empreendedorismo feminino e à ascensão de mulheres a postos de comando.  POR MAITÊ RODRIGUEZ*

Comemorado no mês de março, o Dia Internacional da Mulher vai além de uma data para celebrar e enaltecer as mulheres de todo o mundo. Trata-se, principalmente, de colocar em pauta as barreiras que o gênero ainda enfrenta para assegurar os seus direitos e combater a desigualdade. Embora a presença feminina no mercado de trabalho esteja aumentando significativamente, ainda são visíveis as dificuldades para conquistarem igualdade salarial e atingirem cargos de liderança.

Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2019 a participação das mulheres no mercado de trabalho teve aumento pelo quinto ano consecutivo, com 54,5% de presença. Ainda assim, elas continuam sendo minoria em cargos de liderança, com taxa de 37,4% no mesmo ano. Quanto à remuneração, as mulheres ganham cerca de 22% a menos do que os homens.

Nesse contexto, e em comemoração ao Dia da Mulher, a ABDE promoveu, no dia 8 de março, o webinar “Lideranças femininas em prol do desenvolvimento do país”, com a participação de diversas líderes e especialistas de instituições financeiras, para debater os desafios do empreendedorismo feminino, a representatividade no Sistema Nacional de Fomento e ações que podem ser feitas para uma maior inclusão da mulher no mercado.

Na abertura do evento, o presidente da ABDE, Sergio Gusmão Suchodolski, destacou o trabalho da entidade para impulsionar a participação feminina no sistema financeiro. “É um dia de celebração, de registro de trajetórias, e de inspiração para todos. Temos buscado, dentro da ABDE, realizar uma série de atividades técnicas nas parcerias internacionais para alinhamento das carteiras de crédito ao tema de gênero”, ressaltou.

Sistema Nacional de Fomento

O webinar foi dividido em dois painéis, cada um com temas e palestrantes diferentes. O primeiro tratou das “Lideranças femininas no financiamento do desenvolvimento – representatividade do Sistema Nacional de Fomento” e teve como mediadora a executiva e conselheira da Women in Leadership in Latin America (WILL), Jandaraci Araújo.

Durante o debate, a presidente do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), Leany de Souza Lemos, comentou sobre como já é perceptível o empoderamento econômico das mulheres no setor financeiro e ressaltou o trabalho dos bancos de desenvolvimento e das agências de fomento para estimular a inclusão feminina no empreendedorismo. “As instituições de crédito têm um papel muito importante. O setor público tem que fomentar o microcrédito e a capacidade das mulheres de poderem se formalizar e ter o próprio negócio”. Na ocasião, Leany aproveitou para destacar o lançamento do BRDE: um programa de crédito exclusivo para empresas lideradas por mulheres, com taxas mais baixas e melhores condições.

Para a presidente do Badesul e segunda vice-presidente da ABDE, Jeanette Lontra, as mulheres ainda são minoria no empreendedorismo, seja por insegurança ou falta de estímulo. Jeanette ainda destacou que, em sua grande maioria, as mulheres empreendedoras trabalham em micro e pequenas empresas. “Segundo pesquisa do Sebrae, as mulheres têm mais dificuldade de acessar o crédito, mas têm mais credibilidade porque são melhores pagadoras. Hoje estamos percebendo que temos mais mulheres no mercado de trabalho e isso é muito importante. Elas precisam de um estímulo para melhorar a sua empresa, então agora nós precisamos trabalhar com alternativas para facilitar o acesso ao crédito para essas mulheres”, ressaltou.

Reforçando a importância de apoiar o empreendedorismo feminino, a presidente da Agência de Fomento do Rio Grande do Norte (AGN), Márcia Maia, afirmou que a agência já realiza ações de inclusão de gênero e que procura cada vez mais democratizar o acesso ao crédito. Acerca das dificuldades, Márcia conta que deseja poder oferecer uma linha de crédito específica para atender empreendedoras que são vítimas de violência doméstica. “O sistema financeiro tem regras que não estão permitindo que essas mulheres possam ser estimuladas a empreender e sair desse ciclo vicioso e perverso de depender economicamente do seu próprio agressor. Esse é meu maior desafio no momento, ofertar financiamento para que essas mulheres possam empreender e caminhar com suas próprias pernas”.

No âmbito da desigualdade de gênero, a presidente da Agência de Fomento do Estado do Tocantins, Denise Rocha Domingues, falou sobre como ainda é difícil para a mulher ocupar um espaço dentro do mercado de trabalho, mesmo depois de tantos anos de luta e conquistas. “Em ações como essa, podemos mostrar a capacidade das mulheres e como elas agregam muito nas instituições. Nós produzimos renda, somos multitarefas e aprendemos a flexibilizar nosso tempo. As mulheres são merecedoras de cargos de liderança”, declarou. De acordo com a presidente, a equipe da agência de Tocantins é formada por 70,5% de mulheres, sendo 61% delas líderes.

No papel de mediadora do debate, Jandaraci Araújo aproveitou o momento para reforçar a importância de dar voz às mulheres e prestar a admiração pelas participantes: “Todas aqui são inspiradoras e ajudam a nova geração a saber que elas podem chegar onde quiserem”.

Parcerias internacionais

O segundo painel teve como tema “Parcerias internacionais e a agenda de gênero no Sistema Nacional de Fomento” e contou com a participação da especialista-líder do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Maria Netto e da especialista Maud Chalamet, do Consulado Britânico. Elas debateram o papel que as entidades internacionais têm em auxiliar os bancos de desenvolvimento e as agências de fomento a criarem ações para estimular a participação da mulher no mercado de trabalho e promover a equidade de gênero.

De acordo com Maria Netto, o BID possui uma meta institucional de inclusão que permeia todas as operações do banco e, inclusive, existe um departamento específico para trabalhar o tema da diversidade. “Temos que começar a considerar a inclusão de forma mais ampla. É um trabalho que tem que ser feito de forma estratégica, integral e ser uma política do banco, e que não se faz num dia só”, declarou.

A especialista-líder ainda ressaltou que, durante a crise da pandemia da Covid-19, as mulheres foram as mais afetadas negativamente, tanto pela perda de emprego quanto pela dificuldade de empreendedoras femininas em acessar o financiamento. “Falta a valorização desse tema. Estamos vendo de forma crescente uma grande pressão internacional e a tendência de sensibilizar o mercado como um todo. Os fundos investidores e as instituições cada vez mais começam a considerar a importância da atuação do sistema financeiro com relação ao compromisso social. Precisamos de uma análise mais profunda do que significa essas políticas de gênero na prática e, principalmente, entender as falhas do acesso ao financiamento e como podemos ter indicadores mais sérios sobre a integração. Precisa ser um trabalho de forma conjunta”, informou Maria Netto.

No contexto do governo britânico, Maud Chalamet contou que existe uma posição muito forte no que diz respeito à inclusão feminina e que 58% dos financiamentos doados pelo governo têm o critério de equidade de gênero. Ela também explicou a iniciativa Women in Finance, criada em 2015 pelo Banco da Inglaterra e que agora foi adaptada para o cenário brasileiro, quando durante um ano as instituições financeiras se comprometem com exigências que visam melhorar a agenda de gênero. Entre elas estão o progresso de mulheres em cargos seniores, a ampliação da diversidade no setor e o incentivo de produtos voltados para o público feminino. “Isso é fundamental para que possamos colocar o debate com números e compromissos claros, e que seja uma construção de uma agenda que transforma”.

Com duração de quase duas horas e com mais de 280 visualizações, o webinar cumpriu com seu objetivo de evidenciar os problemas que, em pleno 2021, ainda são enfrentados pelas mulheres no mercado de trabalho, além de apontar possíveis caminhos para que possamos construir uma sociedade mais igualitária. “As mulheres são merecedoras de todas as homenagens, mas, mais do que isso, nossa intenção com estas discussões é contribuir para mudanças reais, algo que vá muito além de um dia e que possa nos trazer, a curto, médio e longo prazo, conquistas significativas na questão da equidade de gênero”, concluiu o presidente Sergio Suchodolski.

A íntegra do evento está disponível no canal oficial da ABDE no Youtube.

* Estagiária, sob a supervisão da Redação.

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