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Agendas para o amanhã

5 de maio de 2021 às 15:24
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Transformação digital, desafios climáticos e transformações geopolíticas globais tensionam o setor produtivo brasileiro, que empreende esforços para reencontrar seu espaço na economia internacional e impulsionar o crescimento do país. POR CARMEN NERY

A queda de 4,1% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2020, a maior em 25 anos, mostra que o Brasil tem muitos desafios a superar para voltar a estar entre as dez maiores economias do mundo, posição que perdeu no ano passado, caindo para a 12ª colocação, devido à redução recorde da atividade econômica. As transformações geopolíticas globais e a decorrente reorganização de cadeias produtivas tensionam o setor produtivo brasileiro, que deve reencontrar seu espaço na economia internacional.

Novas tecnologias, como a Indústria 4.0, serão impulsionadas com a chegada da quinta geração de telefonia celular, uma transformação tão importante que vem suscitando questões geopolíticas em todo o mundo. No sistema financeiro, inovações no campo tecnológico e regulatório multiplicam os instrumentos à disposição das políticas de financiamento, enquanto ampliam a desintermediação bancária e exigem maior eficiência e agilidade.

Mas não são apenas os setores industrial e financeiro que passam por mudanças. A transformação digital é imperativa para todos os segmentos, e a evolução rumo à economia de baixo carbono e de energias renováveis compõe o que se pode chamar de desenvolvimento em transição. Nessas primeiras décadas do século XXI, os desafios da transição climática e as crescentes demandas sociais por inclusão e promoção da diversidade têm encorajado o reposicionamento em ampla escala de políticas públicas, em linha com objetivos e metas ambiciosas, pactuados em âmbito global.

Istvan Kasznar, professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV-Ebape) e coordenador do Programa de Estudos dos Estados e Municípios (PEEM/Ebape), afirma que desenvolvimento é muito diferente de crescimento; significa qualificação da produção, gerando produtividade diversificada e atendendo às múltiplas necessidades da sociedade. Isso necessita passar por um planejamento governamental bem realizado, que adapte bem tanto as políticas públicas, quanto as políticas do setor privado, ao modelo de desenvolvimento nacional com participação do Estado, do empresariado e dos agentes econômicos.

“Não há desenvolvimento sem otimização do mercado de capitais, gerador de poupança no país. Também não há desenvolvimento sem capacitação de um regime de contratos estáveis, e de uma classe política credível, com um combate contínuo à corrupção e a criação de um mega compliance nacional. Há, ainda, a necessidade de estruturar a educação em prol de toda a população com os melhores métodos de inovação possíveis num regime de globalização como o atual”, propõe Kasznar.

Para ele, há algumas premissas para chegarmos a oportunidades de desenvolvimento. O Estado é essencial para dar o rumo principal, servindo de farol mor, mas a partir de acordos entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário e de articulação com grandes agrupamentos, como mídia, telecomunicações e sistema bancário.

“Se verificarmos a história recente do Brasil, percebe-se que o modelo de desenvolvimento foi sendo dilacerado. Entre 1994 e 2002 havia um modelo pautado em reformas monetária, fiscal, bancária e reprogramação das empresas estatais com privatizações às claras. Nos governos Lula e Dilma, este modelo foi desmontado. E, a partir de 2016 e 2017, tivemos crescimento negativo. O Brasil também passou pela onda da Lava Jato, que paralisou setores econômicos, criando efeito multiplicador altamente negativo na economia”, analisa Kasznar.

Ele destaca ainda que a carga fiscal entre 1994 e 2019 só fez crescer, passando de 24% para 37%, reduzindo a capacidade de gerar lucro para formar investimento. Ao mesmo tempo, o investimento do setor público ficou, em média, em 2,2%, e não há como imaginar que os 5.570 municípios brasileiros possam funcionar sem sustentação federativa.

“A crise federativa realimenta a crise nacional, estadual e municipal. Estamos com sete estados quebrados, entre os quais Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O efeito onda da quebra desses estados não pode ser suportado pela maior economia brasileira, a paulista, que representa 33% do PIB. A economia moderna de São Paulo também vai perdendo o seu dínamo industrial. O sucateamento é evidente e quando se perde a produção real, o desenvolvimento é posto em xeque”, alerta Kasznar.

Inovação

Em termos de produtividade, o setor de telecomunicações terá papel fundamental após a implementação da quinta geração de telefonia celular, a 5G. Em fevereiro, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e o Ministério das Telecomunicações (MCom) aprovaram o edital para a licitação das frequências que serão utilizadas para as novas redes de quinta geração. O governo optou pelo padrão mais moderno – denominado stand alone e disponível no Release 16 dos órgãos de padronização –, o 5G puro, que não depende das gerações anteriores de rede.

 O edital está em análise no Tribunal de Contas da União (TCU) e a expectativa é de que o leilão ocorra até o final do ano. O prazo para instalação das primeiras redes com o Release 16 foi antecipado de 31 de dezembro de 2022 para 31 de julho de 2022 nas capitais e no Distrito Federal. O cronograma se estende até 2029, quando deverá cobrir cidades com 30 mil habitantes ou mais.

De acordo com o presidente da Anatel, Leonardo Euler, os cálculos iniciais da agência estimaram o valor total do leilão das frequências de 5G entre R$ 33 bilhões e R$ 35 bilhões. Os cálculos são preliminares – pois ainda têm de passar pela análise e crivo do TCU –, e representam a valoração das frequências sem considerar as obrigações de cobertura.

Entre as obrigações estão a cobertura em rodovias; atendimento a 1.280 municípios que não possuem ainda infraestrutura de rede metropolitana (backhaul) até a sede; e atendimento a cerca de 14 mil localidades e povoados. Além do custeio da migração das TVs por antena parabólica a fim de desocupar a frequência que será utilizada para o 5G – tirando as TVs da banda C para a banda Ku.

“O 5G será um marco para o desenvolvimento do país, pois é o padrão tecnológico mais elevado para serviços móveis. O 4G foi feito para as pessoas; o 5G vem para as empresas. As indústrias vão dar um salto de qualidade jamais visto. Não se trata de um aumento de velocidade, mas a conexão com toda a cadeia produtiva. Será possível eliminar desperdícios desde a produção até o ponto de venda; ou, no caso da conectividade rural, a integração de todo o supply chain. Será uma mudança muito significativa, sem falar em toda a transformação digital”, diz Fábio Faria, ministro das Comunicações.

“O 5G será um marco para o desenvolvimento do país, pois é o padrão tecnológico mais elevado para serviços móveis. As indústrias vão dar um salto de qualidade jamais visto. Não se trata de um aumento de velocidade, mas a conexão com toda a cadeia produtiva.”

Fábio Faria, Ministro das Comunicações

A Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) tem diversas frentes de desenvolvimento não mais apenas na área industrial, mas também abrangendo agro, saúde, PME e cidades inteligentes. Na área de difusão tecnológica, há inclusive um projeto piloto relacionado ao 5G. Marcela Santos de Carvalho, assessora da presidência da ABDI, informa que, em conjunto com a Anatel, a associação conduz um piloto em fábrica da WEG com tecnologia da Nokia.

“No ano passado, falava-se muito na rede 5G, mas pouco sobre redes privativas e conexão máquina a máquina. Não havia elementos suficientes para dar subsídios à Anatel sobre redes privativas. Criamos esse acordo de cooperação técnica para realização de um piloto de redes 5G em ambientes de indústria, agro e cidades inteligentes, subsidiando com informações o processo regulatório da Anatel. A WEG já tem uma planta muito automatizada e uma unidade que traz soluções de conectividade para a indústria, a V2COM. Consideramos que essa união de expertise e oportunidades seria adequada para o primeiro teste. Ao final, teremos um relatório técnico para a Anatel e outro com informações mais mercadológicas e operacionais”, explica Marcela.

O setor de telecomunicações terá papel fundamental para o desenvolvimento do país, após a implementação da quinta geração de telefonia celular, a 5G.

A WEG considerou que poderia aumentar o escopo do piloto e fez uma parceria com a Claro e com a Nokia. Em fevereiro, a Nokia e WEG lançaram o projeto Open Lab WEG/V2COM para acelerar e viabilizar o desenvolvimento de soluções em Indústria 4.0 no país. O projeto piloto visa a demonstrar a qualidade e o valor das redes privadas construídas em 5G standalone. Com duração prevista de um ano, o projeto está sendo desenvolvido em um ambiente real de produção, em uma das fábricas da WEG, em Jaraguá do Sul, em Santa Catarina.

A fábrica terá a função de laboratório, em que uma rede privada 5G será testada simultaneamente a uma rede convencional de uma operadora. Serão desenvolvidos vários casos práticos e avançados de Indústria 4.0, para verificar o ganho de produtividade que a solução poderá trazer, permitindo consolidar modelos consistentes a serem aplicados em projetos de automação industrial.

“O projeto da planta piloto 5G na WEG trará a possibilidade não somente de apoio aos estudos oficiais do emprego da tecnologia no Brasil, como também acelerará o desenvolvimento e testes de produtos e soluções WEG/V2COM para nossos clientes”, diz Guilherme Spina, diretor da V2COM.

“O projeto visa a apontar como se pode alavancar a produtividade usando o 5G na indústria. Será uma rede privada permitindo todas as aplicações de baixa latência, em que a WEG poderá administrar todos os seus usuários, ao ser conectada na nuvem global da Nokia para suportar serviços de análise de dados e aprendizado de máquina”, explica Wilson Cardoso, diretor de soluções da Nokia para a América Latina.

Tecnologias

Já o Programa Agro 4.0, é o primeiro projeto da ABDI para o setor e reservou R$ 4,8 milhões para premiar 14 iniciativas em quatro categorias: insumos, produção (agrícola, pecuária ou pesca), processamento de alimentos, integração da cadeia produtiva. Os projetos integram diversas tecnologias como Internet das Coisas, inteligência artificial, inteligência de dados, computação em nuvem. “O principal foco é aumentar a eficiência produtiva e reduzir os custos de produção, garantindo maior produtividade no campo”, diz Marcela.

O agronegócio brasileiro tem avançado aceleradamente não apenas no volume de produção como na aplicação de novas tecnologias rumo ao conceito de agricultura de precisão, ou agricultura 4.0. De acordo com o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em janeiro, a produção de cereais, leguminosas e oleaginosas estimada para 2021 é de mais um recorde, somando 262,2 milhões de toneladas, com alta de 3,2% (8,1 milhões de toneladas) em relação a 2020 (254,1 milhões de toneladas) e de 1,7 milhão de toneladas (0,7%) frente ao prognóstico anterior.

O levantamento aponta ainda que a área a ser colhida é de 66,8 milhões de hectares, com alta de 2,1% frente à área colhida em 2020 (mais 1,4 milhão de hectares) e de 149 mil hectares (0,2%) frente ao mês anterior.

O agronegócio brasileiro tem avançado na aplicação de novas tecnologias rumo ao conceito de agricultura de precisão, ou Agricultura 4.0.

Na área de saúde, a ABDI desenvolve projetos com o Hospital das Clínicas de São Paulo, com três iniciativas. A primeira é o acompanhamento, dentro e fora do hospital, da jornada do paciente que sofreu transplante de medula óssea, usando biossensores e inteligência artificial. A ideia é melhorar tratamento pós-transplante e reduzir a ida do paciente ao ambiente hospitalar. A segunda iniciativa é um sistema para agendamento automático de exames por imagens por meio de inteligência artificial e aprendizado de máquina. O terceiro projeto visa a aplicação de tecnologia 4.0 em equipamentos voltados à reabilitação de pacientes, embarcando tecnologias de IoT conectadas a uma plataforma digital. Os equipamentos terão funções de estimulação elétrica suportadas por sinais biológicos dos pacientes.

“Outro projeto com a Fiocruz vai digitalizar a maior fábrica de produção de vacinas da América Latina em construção no distrito industrial de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, em uma área de mais de 500 mil m². A digitalização se dará em três etapas: avaliação da prontidão tecnológica; construção e validação de uma arquitetura de referência para o setor farmacêutico como um todo; e criação de um piloto virtual usando a tecnologia de gêmeo digital, com a réplica digital da fábrica a fim de antecipar problemas de certificação, vistoria e fluxo de produção”, diz Marcela.

Ainda na área de Indústria 4.0, a associação conduz na Região Norte, em parceria com o Instituto de Desenvolvimento Tecnológico de Manaus (INDT), um projeto visando capacitar 20 empresas do complexo industrial de Manaus. Orçado em R$ 3,1 milhões, o projeto fará a avaliação de prontidão tecnológica das empresas e proporá um cronograma (road map) de digitalização, além do treinamento e implantação de pilotos.

Cidades inteligentes

Para Tiago Faierstein, gerente da Unidade de Novos Negócios da ABDI, não adianta as empresas entrarem na economia digital, se o cidadão não estiver conectado. As cidades têm de promover tecnologia e conectividade para que o cidadão se sinta parte da economia digital. Ele destaca que o processo de digitalização da economia não é isolado; tem de abranger todas as camadas: governo, empresas e cidadãos.

“A ABDI está promovendo projetos de cidades inteligentes por meio de laboratórios vivos nas cinco regiões do país, atendendo a uma recomendação da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). São laboratórios focados em mobilidade, segurança e conectividade, onde o município testa a solução em uma escala menor, faz a validação tecnológica com a população e, em caso de resultado positivo, replica para todo o município. Com isso, o município erra menos e fica mais fácil para o banco financiar porque sabe que o projeto é sustentável”, explica Faierstein.

Ele conta que há três ministérios envolvidos com cidades inteligentes. Além da Economia, ao qual a ABDI está subordinada, o Ministério do Desenvolvimento Regional está criando a Carta Brasileira de Cidades Inteligentes com políticas públicas norteadoras para regulamentar os investimentos do governo e as ações na área; e o Ministério de Ciência e Tecnologia que conduz o Programa Cidades Digitais para levar conectividade para os municípios. No ano passado, o programa tornou-se Cidades Inteligentes, não apenas levando conectividade, mas deixando-a preparada para receber a gama de dispositivos, sensores e tecnologia.

Produtividade

Outra companhia estratégica para o estímulo à inovação e ao aumento de produtividade, a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), desde a sua criação, há seis anos, já atraiu 779 empresas num total de 1.141 projetos, que somaram R$ 1,6 bilhão de investimentos. O investimento se dá pela contribuição de 61 unidades Embrapii, institutos de pesquisa que aporta um terço dos recursos para o desenvolvimento de projetos de empresas. Essas junto com o governo aplicam os outros dois terços.

“A Embrapii foi concebida a partir da constatação de que a interação entre academia (instituições de ciência e tecnologia) e as empresas sempre foi muito frágil. Era preciso eliminar os entraves. A empresa precisa de confiança no modelo que em que vai apostar com os ICTs; e os pesquisadores precisam entender e aceitar o modelo de cobrança da empresa. A Embrapii também constatou que a grande maioria das empresas não tem centro próprio de pesquisa e desenvolvimento e sendo assim não faz inovação, não gerando patentes nem produtos inovadores. Buscamos modelo de tríplice hélice – governo, empresa e academia – inspirado no Instituto Fraunhofer. Ou seja, a Embrapii tem o centro de pesquisa que as empresas precisam e não têm”, analisa Jorge Guimarães, presidente da Embrapii.

Para a ABDI, não basta as empresas entrarem na economia digital para a transformação da ecoonomia, os cidadão também devem estar conectados. Por isso, as cidades têm de promover tecnologia e conectividade.

Apesar da perda de talentos que estão deixando o país devido à redução dos investimentos em ciência e tecnologia, ele assegura que a empresa está importando cérebros de brasileiros e estrangeiros. O executivo destaca que as unidades Embrapii têm autonomia para discutir os projetos diretamente com as organizações que buscam a unidade para desenvolver um projeto.

“Há unidades que têm mais de 100 engenheiros e pesquisadores consagrados. Com isso conseguimos atrair pessoas novas, brasileiros e estrangeiros. Há muitos jovens talentos que teriam saído do país, se não estivessem atuando em pesquisa aplicada. Mesmo empresas com centros de P&D fortes, como Embraer, Siemens, Votorantim, Vale, fazem projetos com a Embrapii. A Embraer tem 16 projetos conosco. Mas essas são exceções. No setor farmacêutico, de 800 empresas, apenas quatro têm projetos aqui. Vamos fazer uma chamada para criar mais unidades Embrapii para o setor farmacêutico, pois temos competência para produzir até Insumos Farmacêuticos Ativos”, diz Guimarães.

A instituição opera com contrato de gestão, um modelo mais ágil, e atualmente se relaciona com três ministérios – outros estão em diferentes estágios de negociação. O ministério supervisor é o de Ciência e Tecnologia; os outros são os de Educação e Saúde. Estão entrando agora os ministérios de Infraestrutura e de Desenvolvimento Regional e há conversas avançadas com o Ministério da Economia, que é simpático ao contrato de gestão. Em negociação estão os ministérios da Defesa, Agricultura e Minas e Energia. “Isso significa que esses ministérios estão percebendo que boa parte de sua missão na área de tecnologia pode ser resolvida pelo modelo Embrapii”, ressalta Guimarães.

Desde a sua criação, há seis anos, a Embrapii já atraiu 779 empresas, num total de 1.141 projetos, que somaram R$ 1,6 bilhão de investimentos.

Além dos contratos de gestão, a Embrapii tem outras fontes de recurso, como os da Lei de Informática, do Sebrae, do BNDES e mais recentemente do modelo Rota 20/30. Trata-se de um modelo operacional adotado para a indústria automobilística em que 2% do que as empresas importam compõem um fundo que é aplicado em pesquisa por meio de cinco coordenadoras, entre as quais a Embrapii e a Finep, com um volume de recursos de R$ 200 milhões por ano.

“Somando todas as fontes, o orçamento da Embrapii chega a R$ 200 milhões, se não houver cortes e contingenciamento. Temos capacidade de operar muito mais que isso. O nosso primeiro contrato de gestão foi de R$ 1,6 bilhão; recebemos um terço disso, devido aos contingenciamentos no orçamento dos ministérios de Ciência e Tecnologia e Saúde. O orçamento é um valor ínfimo se comparar com as  agências federais, como CNPq e Capes. Mas multiplicamos por três o valor com um volume total em seis anos de R$ 1,6 bilhão, dos quais metade é recurso da empresa direto na unidade”, reitera Guimarães.

Infraestrutura

Fábio Rogério Carvalho, diretor do Departamento de Estruturação e Articulação de Parcerias do Ministério da Infraestrutura, ressalta que, dentro da agenda de desenvolvimento econômico, não adianta todos esses projetos se o país não contar uma infraestrutura adequada que elimine os gargalos logísticos nacionais, barateie os custos internos e beneficie a capacidade de exportação. O Ministério da Infraestrutura tem uma carteira de R$ 201,94 bilhões em concessões e investimentos nos setores rodoviário (R$ 120,01 bilhões), ferroviário (R$ 63,37 bilhões), aeroviário (R$ 11,79 bilhões) e portuário (R$ 6,77 bilhões).

“O objetivo é que esses corredores logísticos conectem o que o país produz com os centros consumidores e com os principais corredores de exportação. Por isso a cadeia de rodovia, ferrovias, portos e aeroportos, proposta em 2019, foi pensada de uma maneira conjunta. Desde 2019, já licitamos 40 ativos e contratamos R$ 44,3 bilhões, que reverteram em R$ 13 bilhões de outorga para a União. A geração de empregos nesses dois anos passa de 650 mil postos”, elenca Carvalho.

O setor portuário é um dos que mais têm avançado na política de concessões. Até o fim do ano, 17 terminais devem ser licitados. O processo no Porto de Santos está previsto para 2022.

Somente em aeroportos foram realizadas 12 concessões e no setor ferroviário há fatos marcantes, como a concessão da Ferrovia Norte-Sul, que começou a ser concebida em 1989. Houve ainda renovação dos contratos das ferrovias da Rumo, Estrada de Ferro Carajás e Estrada de Ferro Vitória-Minas, que totalizam R$ 25 bilhões dos R$ 44,3 bilhões concedidos. Na área de rodovias foram concedidos trechos como os da BR-101, no Sul; e das BR-364 e BR-365.

Apesar de mais modesto, o setor portuário é um dos que mais têm avançado. Já foram arrendados 20 terminais e somente este ano serão licitados mais 17 terminais e iniciada a licitação das Cias. Docas, as atuais autoridades portuárias nos portos públicos. O processo será iniciado pela Cia Docas do Espírito Santo (Codesa), que será licitada até o final do ano; e na sequência, em 2022, os portos de Santos, Itajaí, São Sebastião e Salvador.

Mario Povia, ex-diretor geral da Antaq e diretor de Gestão Portuária da Cia. Docas do Rio de Janeiro, que controla os portos do Rio, Itaguaí, Niterói e Angra dos Reis, diz que, racionalmente, a carga deve procurar um caminho mais ágil. Quando a logística toma um caminho irracional, é por conta de ineficiências. Um exemplo são as hidrovias, pouco utilizadas no país, que têm sido ineficientes na provisão dessa infraestrutura. Daí buscam-se caminhos alternativos. “Não somos eficientes para trabalhar a multimodalidade. Não há racionalidade em um caminhão transportar uma carga por até 5 mil quilômetros em cima de pneus, seja dos pontos de vista ambiental ou econômico”, diz Povia.

Ele ressalta que hoje há uma maior maturidade porque há estudos e planejamento. O poder público está empenhado em novas medidas, como a BR do Mar, com redução do preço do bunker (combustível para navegação) e redução da burocracia. “Isso é necessário porque um navio estrangeiro que abastece no Brasil paga menos que os navios de bandeira brasileira, o que é uma concorrência desleal. O Ministério da Infraestrutura tem conduzido essa agenda”, destaca Povia.

Ele explica que a BR do Mar vem atacar problemas de ineficiência. A carga nacional deixa menos receita para o terminal portuário, com isso o terminal tende a rejeitar a carga de cabotagem. A primeira medida tomada pelo governo foi dar um choque de oferta de terminais nos portos para que, devido à concorrência, operam com ociosidade e passam a ter interesse em receber a carga da cabotagem. Em segundo, a desoneração do bunker, e em terceiro, dissociar a proteção da indústria naval de medidas de estímulo à cabotagem.

“Antes só havia incentivo para quem construísse navio no Brasil. Se a ideia é aumentar a frota nacional, deve-se estimular quem quer usar a bandeira do Brasil, não importa onde o navio foi construído”, defende Povia.

Para Carvalho, do Ministério da Infraestrutura, apesar da pandemia, os investidores estão respondendo e toda a carteira de projetos evoluiu muito bem em todos esses ativos diversificados e espalhados pelo Brasil. O ano de 2020 foi importante porque já haviam sido realizado esforços na elaboração de estudos e aprovação no TCU, que não dependiam de datas.

“Tivemos nove estudos concluídos em 2020. Outra fase importante é a das audiências públicas, conseguimos concluir oito audiências on-line, cujo número de inscritos superou o de audiências presenciais. E aprovamos 31 projetos no TCU, sendo 22 aeroportos, seis portos duas rodovias e uma ferrovia. Além de lançarmos 28 editais em 2020, mesmo com a pandemia”, elenca Carvalho.

O Ministério da Infraestrutura tem uma carteira de mais de R$ 200 bilhões em concessões e investimentos nos setores rodoviário (R$ 120 bi), ferroviário (R$ 63 bi), aeroviário (R$ 11 bi) e portuário (R$ 6,7 bi).

Ele destaca que não há orçamento público para esses investimentos, especialmente na atual conjuntura de controle fiscal. As concessões são, portanto, a única alternativa para que os investimentos fossem feitos, por meio de recursos privados que fomentem a indústria de infraestrutura e gerem empregos.

“Era preciso sanar um déficit. Os especialistas recomendam que sejam investidos em torno de 3% do PIB em infraestrutura e vínhamos investindo 0,5%. Há estudos que comprovam que a cada dólar investido em infraestrutura reverte em outros três a cinco dólares para a economia. A política de infraestrutura é de Estado e não de governo. Entre 2019 e 2020 tivemos mais de 100 ativos. As concessões transformam a nossa infraestrutura e, ao mesmo tempo, geram emprego e renda, então o cenário é realmente transformador”, resume Carvalho.


Mais atingidas pela crise, pequenas empresas miram no digital

Responsável pelo maior nível de geração de empregos, as pequenas e médias empresas foram as mais impactadas pela pandemia. De acordo com a Pesquisa Pulso Empresa: Impacto da Covid-19 nas Empresas – levantamento que faz parte das Estatísticas Experimentais do IBGE –, 715 mil empresas encerraram atividades até a primeira quinzena de junho do ano passado. A pesquisa estima que na primeira quinzena de junho o país tinha 4 milhões de empresas, sendo 2,7 milhões (67,4%) em funcionamento total ou parcial, 610 mil (15%) fechadas temporariamente e 716 mil (17,6%) encerradas em definitivo.

Entre as que estavam com atividades encerradas definitivamente, independente de motivo, as de menor porte (715,1 mil, ou 99,8%) foram as mais atingidas, enquanto 0,2% (1,2 mil) eram intermediárias e nenhuma era de grande porte.

Das 1,3 milhão de empresas que estavam fechadas (temporária ou definitivamente), 522,7 mil (39,4%) encerraram suas atividades por causa da pandemia, sendo que 518,4 mil (99,2%) eram de pequeno porte (até 49 empregados), 4,1 mil (0,8%) de porte intermediário (de 50 a 499 empregados) e 110 de grande porte (mais de 500 empregados).

“Estamos completando um ano de pandemia. A primeira pesquisa que tivemos mostrou um impacto dramático: 35% das empresas pararam de trabalhar; 50% funcionaram parcialmente. A expectativa inicial era de que tudo voltasse anormal em julho de 2020, nas pesquisas seguintes as empresas foram revendo a previsão até chegar a julho de 2021. Ainda estamos tentando entender este momento que trouxe transformações muito fortes, sobretudo nas micro e pequenas empresas”, diz Carlos Melles, diretor presidente do Sebrae.

Ele diz que durante 2019, o Sebrae se concentrou em implementar o Sebrae em Rede, a fim de fazer o digital funcionar. A realidade mostrou que se avançou bastante, pois o crescimento do digital nas Micro, Pequenas e Médias Empresas (MPME) foi a adaptação mais relevante. Depois que o Sebrae constatou que muitos usavam o WhatsApp, fez um contrato com a companhia e descobriu que cerca de 83% das empresas passaram a atender por meio do aplicativo. Em seguida procurou tecnologias mais sofisticadas, como os shoppings virtuais e as plataformas, como o Magazine Luiza e a Amazon.

“A necessidade nos fez buscar mais alianças. No primeiro momento, fomos à rua dizer que o Sebrae estava disponível para ajudar, mas nem sabíamos como. Em seguida, alertamos a sociedade para comprar do pequeno e do vizinho. Depois pegamos as empresas âncoras, como Renner, Armazém Martins, para ajudar as ancoradas via financiamento e capacitação. O auxílio emergencial também deu uma vitalidade para irrigar as MPME. Outro fato surpreendentemente positivo foi que a procura por cursos cresceu 1.300%. E orientamos muito a renegociar dívidas”, elenca Melles.

Ele diz que crédito é vital, assim como questões como a fidelização, via melhor oferta de serviços e revisão do mix de produtos adaptado ao novo cenário de isolamento social. Melles aconselha as empresas a voltarem, mas de forma digital. Outra recomendação é que aprimorem seus conhecimentos de gestão.

A meta do Sebrae atualmente é atuar como orientador de crédito. O presidente destaca os benefícios do Pronampe e do Crédito Orientado, que tem permitido o planejamento do crédito, o que faz com que o agente financeiro esteja mais acessível. E o Sebrae segue acompanhando o uso do crédito, se o empresário está pagando em dia.

“É um modelo mais zeloso. O Pronampe teve cerca de R$ 40 bilhões e conseguiu mais de 500 mil contratos. A aceitação foi muito boa, os juros foram excepcionais, e as garantias, seguras, além de carência para iniciar os pagamentos. Não há dúvida de que a pandemia ainda trará problemas. O cenário ruim é que tudo o que foi postergado deverá ter de começar a ser pago. Por isso o Sebrae está pedindo uma moratória dilatando um pouco mais os pagamentos das MPME. Está saindo um novo Refis, e fizemos um acordo com a Receita, que, pela primeira vez, não tirou do Simples os empresários inadimplentes, o que poderia excluir mais de um milhão de empresas e MEIs. Foi uma conquista do Sebrae e da Frente Parlamentar da MPME”, conclui Melles.

A Associação Brasileira de Desenvolvimento e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) publicaram, no início do ano, o estudo “Apoio às MPMEs na crise da Covid-19: desafios do financiamento para resiliência e recuperação”, que elenca as dificuldades enfrentadas pelas pequenas empresas e as ações desenvolvidas pelo Sistema Nacional de Fomento para apoiar o setor.  O estudo está disponível no site do BID (www.iadb.org).


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